DOEU A CIVILIZAÇÃO DO “EU”

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A civilização na qual triunfou o “eu”, em geral adoeceu, sofreu e, se não morreu, doeu. Nietzsche a descreveu na sua usual forma sarcástica. Vivesse ainda hoje, aumentaria seu escárnio e seus adjetivos. Engenhosa, a modernidade inventou, a cada dia, novas e maiores formas de corromper, de matar e de proteger os indivíduos vitoriosos porque poderosos. A lei realmente não chega lá. Vemos isso todos os dias no Brasil. Desviou, mas não devolve nem vai preso! Há exceções, mas são exceções.

O culto ao indivíduo que pode, chegou lá e é vitorioso, prossegue na política, na mídia e na religião. É fácil perceber isso nos noticiários sobre os grandes e famosos. Há um misto de veneração e adoração por que venceu pela beleza, pelo esporte, pelo dinheiro e pela fé. A eles critica-se mais, mas permite-se mais. O espetáculo do esporte, da beleza, da pregação revela o panorama externo, mas não o interno dos fatos. Jesus a isto se referia em Mt 6,5 quando afirmou:

E, quando orares, não sejas como os hipócritas; pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas, e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. (Mateus 6: 5) Por fora é espetáculo de fé, mas por dentro é tudo menos fé.

Com as devidas aplicações, observe-se o mesmo no mundo perseguido pelos holofotes. Nada errado em aparecer. O mal de tudo isso é que, não poucas vezes, ressalta-se em excesso o indivíduo que se elevou acima da comunidade. Virou semideus porque se destacou. Os que têm consciência do seu papel apressam-se a atribuir seu sucesso a outros e a não permitir que seu “eu” suplante a comunidade. Mas eles são raros, porque a era do individualismo exacerbado continua a fazer vítimas.

Mal saímos do fascismo, do nazismo e do comunismo, e já há pequenos ditadores querendo o mesmo caminho. Ainda há eu demais no mundo, em todas as modalidades. Não é que nosso eu deva desaparecer. Mas é melhor que se ajuste, porque os bilhões de “eu” só sobreviverão dentro do grande “nós” que lhes protege a individualidade.

Individualidade, sim, individualismo, não! Já pensaram no que aconteceria se um piloto de avião excessivamente individualista decidisse levar todos os outros “eu” do avião para onde ele quisesse? Sua individualidade está subordinada à dos demais. Sujeitar a vida e a rotina de todos ao nosso capricho seria individualismo. De certa forma, na economia, na política e em algumas igrejas é o que tem acontecido. Cuidemos com a expressão muito usada em algumas igrejas e partidos: -Tome posse do trono! Não tome não! Aceite a cruz do serviço!<

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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