Aconteceu na minha família, aconteceu comigo e acontece com milhões de brasileiros. Ninguém, em sã consciência quer ficar doente. O desejo de adoecer, em si mesmo já é uma enfermidade. Fomos feitos para a saúde, mas acidentes, disfunções, corpos estranhos, idade e dezenas de outros fatores nos colocam na categoria de leve ou gravemente enfermos. A doença raramente pede licença. Vem e se aboleta sobre nós.
Fiz uma vez uma canção pensando em todos os enfermos: “Se a dor me visitar”. E dizia: Sabiás ainda são sabiás mesmo quando não cantam/; Águias feridas ainda são águias, eu sei que elas são./ Quando alguém a podou a roseira chorou, mas depois se vingou:/ Deu mais rosas do que nunca. Ninguém nasceu pra sofrer, / mas a dor nos faz crescer.
Questionado pelo parente de um enfermo sofre isso de a dor fazer crescer, minha resposta foi clara e peremptória: – “Faz!”. A grande maioria das pessoas portadoras de algum limite ou de alguma dor consegue viver, sobreviver e superar-se. Lembram o avião que, quando o outro se apaga, pousa com um só motor… Vejo isso todos os dias quando dou assistência a enfermos nos hospitais e quando atendo pessoas feridas no corpo e na alma.
Eu mesmo porto por anos as marcas de dois acidentes e, agora, do silencioso diabetes. Não como o que quero: como o que posso! Estou naquela de Lacan: Você quer o que deseja? Aprendi há tempos a não querer o que desejo. Descobri a ascese e aprendi com os médicos que comer e viver são ciências. Mas mesmo cerceados dá para viver e trabalhar intensamente, desde que aprendamos a conviver com nossas limitações.
É aí que me lembro dele e o aponto para quem já não pode fazer o que podia. Jesus não procurou a cruz, mas quando ela veio, soube o que fazer com ela. E foi ele quem disse que segui-lo implicava em cada qual levar a própria cruz.(Mt 10,38) Mais adiante diria que só vai para o céu quem carrega a cruz dos outros. (Mt 25,31-46) <
A porta estreita que leva ao céu é isso tudo e um pouco mais do que isso. Caminho fácil não é! Desconfiemos de religião amena e cor de rosa, do caminho tranquilo e dos milagres a granel. Duvidemos ainda de quem garante que, repetindo dez vezes a mesma prece, conseguiremos a almejada graça. Confiemos um pouco mais no poder da misericórdia e da ajuda mútua. Se algo deve ser repetido mil ou mais vezes, este algo é a caridade e a paciência.
Outra vez foi Jesus quem disse que pela nossa perseverança e paciência conquistaríamos, em primeiro lugar a nós mesmos. (Lc 21,19) A conquista de si mesmo é a conquista de nossa alma. Dono de si, o ser humano, saudável ou enfermo terá o que dizer ao mundo! Ouçamos os carregadores de cruz. Evitemos aplaudir os crucificadores! Nenhum deles melhorou este planeta!




