Se não vai di anssim, tão vai a zóio memo! Passo perto do bar e ouço o balconista. Gosto de ouvir. Não é dialeto. É português autóctone!
Gosto imenso de Taubaté, cidade para onde vim aos dois anos de idade, oriundo dos morros de Machado, em Minas. Pai paralítico por acidente, família pobre, lembro-me da cidade que através do SESI promovia encontros com as crianças. Taubaté cuidava bem dos pequenos. Esporte, distribuição de presentes no Natal, animação de rádio do Cesar Moreira e do Silva Junior no domingo da petizada.
Lembro-me do Anacleto Rosas, dos livros de Monteiro Lobato, do Sitio do Picapau Amarelo, dos Cines Urupês, Palace e Boa Vista, onde filho de operário da Juta e da CTI assistia de graça os filmes de Durango Kid e Roy Rogers. Descíamos o morro montados em cabos de vassoura e imitando os mocinhos enquanto atirávamos com os dedos e com a boca.
Foi na descida da Juta que caí da bicicleta sem freio alugada por alguns “destoes” e meu braço virou para trás. O Dr. Avediz me desafiou perguntando se eu era homem para não chorar. Respondi que ainda era um menino, mas que não choraria. E não chorei! Tinha oito anos! Tínhamos brio! Ninguém desistia só porque caíra. Voltei a descer o morro, desta vez com bicicleta de freio.
Gosto de Taubaté onde há uma safra de bons artistas e cantores, um dos berços da moderna música católica, assim me dizem! Na verdade meu trabalho começou em São Judas, São Paulo. Mas vim para cá outra vez em l980. Mas Taubaté traduz cultura, boas faculdades, bons hospitais, razoável distribuição de renda, boas e grandes indústrias, locação privilegiada entre o mar e a montanha, restaurantes de primeira linha, igrejas que dialogam; não tanto quanto deveriam, mas bastante.
Gosto de chegar na Faculdade Dehoniana e no Convento onde moro e ver, em caminho, a faixa em defesa dos animais, porque animal não é brinquedo, sente fome dor e medo. Gosto de ver os anciãos se exercitando na academia ao ar livre, na praça da velha rodoviária, construída só para eles. Gosto dos nossos museus e das nossas muitas casas de cultura.
Quanto à imaginária Velhinha de Taubaté do Veríssimo, que acredita em todo mundo e até no Governo, eu nunca a encontrei. Também não tive a aventura de ser apresentado à Neide Taubaté do Chico Anísio. Mas passo pela cidade, pelos bairros, vejo as casas simples e pobres, mas bem cuidadas, passo pelas vilas de classe média e vejo que aqui as coisas têm dado certo. Não conheço bairros de milionários. Não vejo luxo em Taubaté. Vejo conforto. É uma boa cidade.
Se é bom viver aqui? Acho que sim! Conheço 55 países, para onde me levou minha missão de anunciar Jesus. Conheço o Brasil de ponta a ponta. Até dizem que já fui um padre famoso, agora que despontam outros famosos por aqui, o Padre Joãozinho e o Padre Fábio de Melo. Ando fora porque ainda não parei a vida missionária, mas, quando volto celebro nas capelas, no meio do povo simples que me pergunta por que não tenho guarda-costas. Respondo que nunca tive. Nunca fui famosos a este ponto! Melhor para mim que não assinei contratos perigosos que me exporiam demais!
Gosto de andar no meio do povo do jeito que ele é e eu do jeito que sou. Converso com a elite pensante que ouve minhas pregações e as comenta. Dou aulas. Vejo os seminaristas e sua fome de conteúdo. A cidade também quer pão e cultura. E parece que os tem.
Se é tudo perfeito? Não é nem será. Mas tudo considerado, a vida aqui é serena. Montanhas à direita, o mar à esquerda, o Paraíba a lhe banhar os limites, a Dutra e a Carvalho Pinto a cruzá-la. Aparecida e Campos do Jordão a quarenta minutos, o mar a oitenta quilômetros. Aqui onde moro, mas moro, aprende-se muito. Acabei de ir ao mercado ouvir o sotaque do Registro. Cunvers, num vorto mai lá qu urtimavei que fui lá o cachor mordeu eu! Se é português caipira? Não. É cultura Taubateana, que Monteiro Lobato soube valorizar, que Mazaroppi transformou em comédia, o Cid Moreira em português castiço e bem pronunciado, o Anacleto em música sertaneja, o Renato Teixeira em canto interiorano elaborado, a Hebe Camargo em conversas de comadres felizes e ligadas ao cotidiano.
Gosto de Taubaté. Há trinta anos querem dar-me o título de cidadão Taubateano, porque sou das montanhas de Minas. Ainda não aceitei. É que sou daqui também e como há milhares de Taubateanos adotivos, penso neles. Primeiro eles, depois eu. Fazem mais por Taubaté do que eu fiz. Um dia quem sabe! Mas, pensando bem, porque diploma e prêmio? Morar aqui e ter aprendido aqui as primeiras letras e primeiras canções já foi meu prêmio.
Onde acham que comecei a gostar de música e de literatura para depois chegar ao mundo inteiro com meus Lps, CDs e DVDs em, shows e livros? Meus cinco irmãos, Dona Wanda, Professor Mário, Dona Anita, Dona Angelina, Dona Maria José Arantes, Padre Teodoro, Padre Fisher, padres Ivo, Humberto, Matias e André têm algo a ver com isso! Não fossem eles, eu não teria aprendido o que aprendi, nem sonhado o que sonhei.
Pensando bem e outra vez, acho que sou um produto de exportação de Taubaté! E aviso que aqui onde moro há muito mais cabeças como a minha, a do Pe. Joãozinho e do Pe. Fábio. Aguardem alguns anos e verão. Conheça nossos cantores e nossas cantoras, nossos professores, nossos universitários, nossas empresas, nosso restaurantes, nossas figureiras, nosso canto e nossa arte. Terá uma idéia de Taubaté que incidentemente, não acha que o Governo é bonzinho e está certo em tudo. Nisso, a velhinha de Taubaté está sozinha!




