Nos mais de 40 anos que trabalhei na pastoral de juventude não exageraria se disse que mais de mil vezes ouvi poemas e canções de adolescentes e jovens
a falar de mundo mais irmão, mundo novo e mundo melhor. Os jovens americanos falavam de “new rainbow”, os italianos de “farfalle e arcobaleno”, os latinos de “nuevo tiempo! Eu mesmo escrevi e falei dessas utopias e apostei em alguns caminhos, mesmo que com um pé atrás. Isso era terrivelmente mal visto, porque equivalia a estar em cima do muro, coisa que requer enorme equilíbrio embora quem pende para um lado não goste de quem não penda.
Saudei o movimento Mundo Melhor, o PT, a Teologia da Libertação, a Renovação Carismática, a volta da democracia ao Brasil e apostei em tudo o que significava mudanças políticas e espirituais com espaço para os outros, sem nenhuma dominação e hegemonia. Algumas deram certo. Outras nem tanto! Se alguém me pergunta qual dela é porque, ou não está convicto, ou ainda não percebeu!
Se estou decepcionado? Não! Eu leio antropologia e história. Sei como era, como foi, como tem sido e possivelmente como será. Alguém começa cheio de boas intenções, reformando e tentando melhorar o que um outro alguém cheio das melhores intenções começou. Décadas ou séculos depois, um novo alguém acha que já está na hora de reformular, aperfeiçoar, renovar ou restaurar o que já foi tri-reformado e voa para o futuro ou freia tudo e conservadoramente volta para o passado. São os integristas ou os inovadores, todos eles alegando obediência aos fundamentos.
O mundo é como aquele ritual, não sei de que país, no qual todos avançam em procissão, dando dois passos para a frente e um para trás. Não deixam de progredir, mas demoram o dobro ou o triplo para chegar aonde chegariam sem o retrocesso. Mas é assim o ser humano. Adora dois meio-progressos e um grande retrocesso. Milhões aderem ao insatisfeito que criou algo novo e, mais adiante, outros milhões largam este algo novo que depressa envelheceu e se corrompeu. Aí partem para um caminho mais novo. Todos garantem ter achado a resposta definitiva, pelo menos por alguns anos.
Preste atenção nos fundamentalistas, nos integristas, nas restauradores, nos reformadores olhe suas vestes e seus ritos, ouça seu discursos. Todos eles dizem que vieram salvar, reconstruir, renovar e modificar o que se desviou. Em pouco tempo, lá estão eles a punir quem se desviou da pureza de sua revolução política ou espiritual. Todos os reformadores e renovadores, em menos de duas décadas viram seus movimentos a precisar de reforma e de renovação. É que tudo que é humano se deteriora e envelhece depressa. O tempo mostra se vieram para durar ou para apenas sacudir.
O momento de agora e de sacudir. Vem dos anos 70 e reflete vertigens sazonais e regionais de mudar, voltar atrás ou avançar desabridamente para um futuro que não sabem definir. Só não querem é ficar na mesma. A história tem freio e acelerador. O mundo político, religioso econômico e político não está sabendo quando pisar num e noutro dispositivo. Mais parece um barco com remadores remando ao contrário, por isso mais gira do que avança.
Olhe os terroristas religiosos, os milhões de novos templos, cinco a seis em cada quadra. Olhe as esquerdas direitistas e as direitas esquerdistas e olhe as economias em eterno vai-e-vem e perceberá que as utopias continuam em alta. Se não deram certo é porque não passam de utopias. O nazismo, o marxismo e o maoísmo, foram utopias que deram em pesadelo. Vejamos aonde as mais recentes propostas de salvação política e religiosa levarão seus adeptos. Não leva mais do que algumas décadas. Quem viver verá o sucesso ou os estragos.




