Bush é um norte-americano que pelo que se sabe dele, não merecia a presidência que arrebatou numa eleição confusa e cheia de lacunas, mas foi muito significativa a marcha de 250 mil pessoas contra Bush no domingo , dia 29 de agosto de 2004. Mostrou a impureza das intenções, o oportunismo, as incoerências e as contradições de uma democracia que se situa entre a permissividade e o pacifismo. Marcharam contra Bush os que queriam o fim da guerra no Iraque, mais verbas para os pobres e os carentes, menos apoio aos donos do dinheiro e aos bancos. Entre eles marcharam, também, os que, ostentando seus cartazes, queriam outro presidente que apoiasse o seu direito de abortar e de casar com alguém do mesmo sexo. Uns queriam o Bush fora do governo para que a América pacifista voltasse ao diálogo com os paises pobres e cuidasse mais dos seus pobres, sem empobrecer os outros povos. Outros queriam uma América que não se metesse na sua vida sexual e no seu direito de reproduzir, ou de interromper uma gestação.
Os cartazes mostravam gente a defender o feto e gente a defender a gestante. Contra ou pro Bush, eles queriam era aproveitar a marcha de 250 mil pessoas e a cobertura que ela geraria na mídia, para fazer valer o seu ponto de vista. Em outras palavras:
um significativo número daqueles 250 mil em passeata, enquanto combatiam a guerra de Bush que sacrificou jovens americanos e indefesos pobres iraquianos, ostentava cartazes pedindo o direito de sacrificar fetos humanos, caso a mãe e o pai não os quisessem. Guerra aos futuros norte-americanos, sim, mas guerra contra os atuais norte-americanos e iraquianos, não!
Incoerente, estranho e estapafúrdio! Queriam o direito de matar um feto porque ainda não parece a pessoa que vai ser, mas não admitiam que se mate soldados e pobres, porque tinham visto o que se fez contra eles. Que tal se a mesma televisão tivesse mostrado os milhões de fetos indefesos extraídos todos os anos de mulheres que quiseram o sexo, mas não quiseram o feto? Mais estapafúrdio ainda é, lá e cá, acusarem de conservadorismo quem tenta preservar um feto humano vivo e de progressista quem tenta preservar um filhote de foca ou de baleia. Cúmulo dos cúmulos é situar como conservador um pregador que cuida de pobres, de doentes, de sem terra e sem teto, mas condena o aborto. Querer mudar a sorte e a situação de pobres, de doentes, de sem teto, de sem terra e de fetos, ao que se sabe, é atitude progressista. Querer destruí-los é que é terrorismo e atitude retrógrada. Mas não é o que a mídia insinua!
É o jogo duro e pesado de marketing do individualismo libertário dos que colocam o seu conforto e os seus direitos acima dos direitos dos mais frágeis, inclusive o de um futuro ser humano que eles mesmos geraram. É a filosofia do individualismo levado às últimas conseqüências. Querem a solidariedade para com o casal infeliz com a gravidez e não admitem a solidariedade para com o futuro ser humano, agora um feto indefeso.
Consideram-se pessoas contrariadas e declaram que as leis em favor do feto as oprimem e cerceiam seus direitos. Para elas o feto que as contraria é ainda não é pessoa, portanto não tem direito algum. Sua filosofia consiste nos seguintes lemas: “Primeiro eu, a pessoa que eu amo agora e as nossas necessidades” “Se quem foi concebido por nós naquele ato amoroso nos atrapalhar, seja ele retirado do nosso caminho. É uma não-pessoa”. Não o amamos o bastante para gestá-lo e concebê-lo. Somos soberanos. Nosso corpo é soberano. Nosso amor é soberano. Nosso sexo é soberano. Quisemos este sexo, mas não queremos este feto. Exigimos o direito de escolher e decidir sobre o destino dele. É nosso e não do Governo. O que está neste ventre é um vir a ser , mas nós já somos. Não admitimos que se defenda quem ainda não é uma pessoa contra duas pessoas que já são e que pagam impostos e servem o país.
Rebelando-se contra a ditadura da religião e do Estado sobre o seu ventre, proclamam a ditadura do seu ventre sobre o seu feto! Querem que o Estado os acolha, mas não querem acolher o feto que geraram. A isso, cheia de eufemismos, chamam de PRO-CHOICE. Movimento em favor da escolha. E nós sabemos de que escolha se trata: a de não ter aquele feto. Só que a escolha passa pelo direito de matá-lo.
Os Estados permitem que se tire um tumor maligno de um ventre. Eles querem que o Estado estenda o mesmo direito aos que não querem mais o fruto de seu sexo. Não é algo novo. Esparta já fazia isso há cerca de 23 séculos atrás. Se o filho indesejado, assim mesmo nascesse, entregavam ao Estado para que um funcionário o jogasse no Apothetes, um abismo onde se jogavam os condenados e os indesejados da sociedade. ( Plutarco, Licurgo: 16) Excesso de liberdade é como excesso de proibição: são duas atitudes que acabam em ditadura e mortes! Quem faz, ou não sabe o que faz, ou sabe, mas assim mesmo quer aquele direito: o de extrair um feto, que é um verbo mais suave do que matar.




