Perguntaram-me, estabelecendo confronto. A jornalista quis saber se eu era um carismático moderno ou um conservador. A outra perguntou se eu era libertador ou carismático. Tentei explicar que, na Renovação Carismática e entre os pentecostais, que possuem o que eles mesmos chamam de Cultura de Pentecostes, há os esquerdistas e direitistas, os progressistas e os conservadores.
Expliquei, também, que entre os que se proclamam da libertação e do social, também há os de proposta sociológica de esquerda retrograda e os de esquerda moderada, aberta a diálogo. Vai mais da pessoa do que da linha de espiritualidade. A linha teológica e sociológica não é definida e clara para todos. Por isso a pergunta sobre ser ou não ser conservador ou progressista não tem nada a ver com danças, balanços, palmas e festas dentro do templo. Tem a ver com a doutrina que transparece nas letras das canções e nos sermões. Ali, sim, sabe-se quem é conservador e quem pensa na transformação da sociedade. Tem a ver com a res socialis, a res publica, o conceito de ter e partilhar, a noção de pessoa, de direitos, de sistemas políticos, de mudanças, de privilégios, de castas, de solidariedade. Isto transcende a movimentos e partidos. É coisa de caridade na verdade. Pode até parecer moderno, mas não é moderno aquele que acumula bens e aposta no capital, na mais valia e nos juros. Pode parecer moderno quem se diz socialista, mas agarra-se ao poder, a privilégios e puxa tudo para o seu partido dando a entender que, sendo de esquerda, pode!
Uma das jornalistas perguntou então onde me situava se não era nem de direita, nem de centro, nem de esquerda, nem carismático, nem libertador e se não me situava numa das correntes. Perguntei-lhe se tinha que escrever sempre sobre o mesmo tema e sempre nem mais nem menos que 2.200 toques. Ela entendeu. Não é o número de toques que faz uma boa redação e sim o conteúdo.
Não sei se sou libertador, nem se sou carismático. Gostaria de ser os dois, porque tenho uma libertação a buscar e um carisma a exercitar. Sei que, em algumas situações, deverei exercitar o meu papel de libertador, em outras deverei deixar fluir alguns dos muitos carismas que Deus me deu, mas preciso aprender a disciplinar, tanto as minhas inspirações e rompantes carismáticos, como minhas inspirações e rompantes de libertação.
Eu não tenho tudo que meu povo necessita para ajudá-lo a libertar-se, portanto minha palavra não pode vir apenas de mim. Também não tenho tudo que meu povo necessita para a união mais profunda com Deus. Por isso mesmo preciso da palavra da Igreja para lhes dar mais espiritualidade. Não me adianta decorar um discurso de um movimento ou de um grupo de igreja, seja ele de ênfase espiritualista ou de ênfase política. Discursos não libertam, conteúdo, sim.
As pessoas deveriam descobrir por si mesmas, se tenho ou se não tenho uma atitude libertadora e se ela é legítima e fundamentada nos dogmas e ensinamentos da Igreja. Teriam também que descobrir se tenho unção, espiritualidade ou se é apenas discurso. Essas coisas se provam com uma vida e não com palavras.
Por isso pedirei a Deus todos os dias, a graça de ser sempre renovado, sempre carismático e sempre libertador, dentro da ordem da congregação religiosa na qual escolhi viver o meu chamado. Quando os problemas se acentuarem -e eles se acentuam-, hei de pedir misericórdia e graça de Deus para saber superá-los, sejam eles causados pela enfermidade, por erros de perspectiva ou por atitudes que não somam e não ajudam meu povo a crescer.
Não sei se sou libertador, mas para o ser, preciso estudar com afinco a doutrina social da igreja que me ordenou sacerdote. Não sei se sou carismático dentro da minha congregação e perante meus irmãos, mas sei que preciso aprofundar muito a espiritualidade católica, se pretendo levá-la ao meu povo. Serei julgado por Deus, mas também pela minha Igreja, pelo que eu disse, fiz e vivi. Farei história se tiver caminhado com toda Igreja e não apenas com um grupo de igreja.
Se tiver tido o coração aberto para todos e capacidade de falar e dialogar com todos, farei apenas um pedacinho da história. Se tiver me deixado prender apenas por um grupo, falado apenas a linguagem desse grupo e se não tiver conseguido falar a linguagem da Igreja Católica Apostólica Romana é sinal de que terei me fechado. Deus me ajude a ser diastólico. Meu coração não pode viver apenas de sístole. Não me fecharei. Um católico que se fecha perde a sua catolicidade.




