COMPADECEU-SE

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Teu filho morrerá! 2 Sm 12,7-22

Um Deus que se vinga do pai matando-lhe o filho? Ou o Pai que, pensando ser esta a vontade de Deus pensa em sacrificar o próprio? Teria Deus punido Davi matando-lhe o filho? Deus quer esse tipo de expiação? No Velho e no Novo Testamento encontram-se as duas leituras. Que rosto mais condiz com o rosto de Deus? O compassivo que educa ou o que não deixa um pecado sem punição?

O binômio compaixão e contrição faz parte essencial do cristianismo. A compaixão existe até sem a contrição, porque Deus não sabe não perdoar, mas sem a contrição ela é como a luz do sol que não entra na casa por causa das portas fechadas e das cortinas cerradas. O problema passa a ser da liberdade e da vontade do homem. Deu se compadece. O homem é que às vezes endurece e morre nos eu pecado.

O rapaz que, aos trinta anos destruiu para sempre a sua vida teve milhares de chances desde os dezesseis para deixar as más companhias e a droga. Não quis, não conseguiu. Três vezes lhe ofereceram tratamento, mas ele não se dobrou. Quando drogado roubou e matou o casal que se lhe opunha concluiu o processo de arruinar-se para sempre. Rejeitou a compaixão do pai, da mãe, das autoridades, da igreja e de quem quer que se dispôs a ajudar. Já não era mais livre, mas agiu como se fosse. A este ponto chega o pecado: tira até a liberdade de aceitar a compaixão. Ofende-se com a oferta de perdão. O perdoador incomoda, porque perdoa mas não se cala.

Em lugar de droga, coloquemos a palavra pecado e entenderemos o perfil do rosto de Deus traçado em Livros como o dos Juízes e os dois de Samuel e o mesmo rosto traçado por Jesus e pelos apóstolos e evangelistas. O novo elemento é o amor exigente. Deus não se vinga, mas também não se cala!

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O autor do 2 Livro de Samuel, 12,7-22 e os neo-testamentários Lucas e Paulo nos oferecem dois rostos que traduzem mudança profunda de catequese e de enfoque. Não é que javé não fosse misericordioso. Ele sempre foi. Mas a visão de uma época e de outra diferem frontalmente. O rosto de Deus numa sociedade tribal marcada pela luta, pela sobrevivência e pela vingança era um. O rosto dele traçado numa sociedade mais organizada, ela mesma às voltas com invasores e dominadores, é outro. Numa, Deus perdoa o guerreiro porque ainda vai precisar dele, mas pune seu pecado no filho que lhe nasceu de adultério e levou o rei guerreiro ao assassinato o seu oficial com cuja mulher ele dormira. Deus fere e mata uma criança para reeducar o seu guerreiro. Deus faria isso? Ou foi leitura do escritor?

Nos outros casos lemos que o Filho de Deus se entrega voluntariamente pelos pecados dos homens e morre por eles. O mesmo mártir, cheio de misericórdia devolve filhos enfermos ou ressuscitados às suas mães. Uma é a face do Deus que tira uma criança para punir o pecador, outra é a do que salva uma filha, independente da fidelidade da mãe Cananéia.

Em Lucas 7, 36-50 o episódio da mulher penitente ilustra o que Paulo repete em Efésios 2,4: “Deus é riquíssimo em misericórdia” fazendo coro a Joel

Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. (Joel 2, 13)

Jesus vem carregado desta compaixão e este é, segundo ele, o verdadeiro rosto de Deus. Inda haverá severidade e disciplina, mas Jesus fala do perdão ao inimigo e ao pecador arrependido, antecipa-se e cura quem nem sequer lhe pediu ajuda, devolve, ressuscitado, à mãe viúva, um filho que ela nem pediu que ele ressuscitasse. Emocionou-se, chorou, sentiu pena do povo com fome (Mt 15,32) e como ovelhas sem pastor; (Mc 6,34) deixou que os discípulos quebrassem a lei colhendo espigas por estarem com fome (Mt 12,3); ensinou que os misericordiosos alcançariam misericórdia e que o céu estaria aberto aos compassivos (Mt 25, 31-46); acentuou que não haveria lugar no céu para pregadores que fizeram milagres estrondosos e exorcismos profecias mirabolantes, mas não fizeram a vontade do pai que queria que elevassem os pequeninos (Mt 7,21-23).

A boa nova amaciou, ou continuou a ser exigente? É possível ter compaixão e continuar cobrando arrependimento? Tanto é que Jesus o fez o tempo todo. Não deixava passar o erro, mas até o fim dava chance a quem errou. Segundo ele perdão, compaixão misericórdia são a verdadeira face de Deus. Continuava valendo o grito dos patriarcas e dos profetas:

Porque, em vos convertendo ao SENHOR, vossos irmãos e vossos filhos acharão misericórdia perante os que os levaram cativos, e tornarão a esta terra; porque o SENHOR vosso Deus é misericordioso e compassivo, e não desviará de vós o seu rosto, se vos converterdes a ele. (II Crônicas 30 : 9)

Rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao SENHOR vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal. (Joel 2, 13)

Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade. (Salmos 86 : 15)

Pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão, segundo a grandeza das suas misericórdias. (Lm 3, 32)

Sua compaixão não vem sem justiça, e sua justiça é feita de compaixão. Sim, Deus não deixa de corrigir, mas não pune em excesso. Não destina ninguém para a ira ( 1 Ts 5,9) é lento para a cólera e rápido na compaixão e ensina a perdoar setenta sete vezes (Mt 18,22) Não ficará indiferente ao pecado, mas dará chance ao pecador até seu ultimo momento (L 23,43 )

Jesus é misericórdia, é compaixão, perdão e é solidariedade. Importa-se com o sofrimento e a dor de alma.( Mt 18,33;Mc 1,41; 6,34; Lc 7,13) Não há como anunciá-lo sem anunciar estas virtudes. Passou fazendo o bem, foi poderoso em palavras e obras, teve compaixão do povo. E pregou compaixão (Lc 15,20 ; Mc 8,2) Seu proceder e suas histórias apontavam para este rosto de Deus. Ele é a vítima de expiação, ele mesmo se doa. Ninguém paga por ele. Se alguém tem que morrer, morre ele (Jo 18,8 )

Aquele que nem mesmo a seu próprio Filho poupou, antes o entregou por todos nós, como nos não dará também com ele todas as coisas? (Rm 8, 32)

Eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores. (Mt 26,: 45)

Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou, e se entregou a si mesmo por mim. (Gl 2, 20)

Entre os cristãos desde o começo era esta a doutrina. Jesus não veio fazer vítimas. Veio salvá-las sendo ele mesmo a vítima.

E o lugar da Escritura que lia era este: Foi levado como a ovelha para o matadouro; e, como está mudo o cordeiro diante do que o tosquia, Assim não abriu a sua boca. (At 8, 32)

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. (Jo 1, 29)

A pecadora intrusa

O episódio da mulher que se fez intrusa na casa do rico Simão mostra a postura de Jesus em favor dos pequenos, apequenados e pecadores. Ela era vista como pecadora na cidade. Simão era o justo e admirado. Jesus não se negou a aceitar o convite do homem poderoso. Foi lá jantar. Era um público a ser atingido. Mas não foi recebido com as cerimônias de quem acolhe bem. Não ouve o óleo na cabeça, nem o beijo e os outros gestos de acolhida… A mulher entra chorando e sem licença, beija os pés de Jesus, chora sobre eles, enxuga carinhosamente com os seus próprios cabelos…

Se Jesus fosse profeta de verdade, não permitira aquela cena, não com uma mulher daquele tipo…Foi o que Simão pensou.Jesus não passara no teste! Ma quem não passou no teste foi o pomposo Simão. Jesus foi direto ao assunto: – Você me convidou mas não me acolheu para não se dar mal com os fariseus. Eu teria a perder recebendo esta mulher, mas garanto-lhe que quem perdeu foi você. Ela me acolheu, mostrou arrependimento e fez tudo o que podia para provar que mudou de vida. Ela sai daqui perdoada”…

Muito perdão e muito amor

Era a doutrina posta em prática fazendo coro à história do fariseu e do publicano. O pecador ficou puro e o santarrão que se julgava eleito saiu mais sujo que pau de galinheiro.

Descrito por Jesus nem o Pai nem ele conhecem limites para a misericórdia. Até seu próprios assassinos terão perdão, desde que façam a sua parte: que se arrependam, dos seu atos e de suas atitudes. Em resumo: a misericórdia está a nossa disposição vinte e quatro horas por dia durante todos os dias da nossa vida e até mesmo na hora de nossa morte , como foi o caso do ladrão crucificado com ele ((L 23,43 ), mas há uma parte que depende de nós: reconhecer nosso pecado., aceitar ser perdoados e querer este perdão, porque sem isso acabaremos morrendo no pecado (Jo 8,21 ).

A compaixão e seu limite

Se a compaixão de Deus tem um limite este limite é a nossa vontade. Resistir ao Espírito Santo é difícil, mas possível (At 8,10; Ef 4,30), mas as conseqüências são desastrosas. Jerusalém teve todas as chances, mas não as quis ( Mt 23,37). A pecadora teve sua chance e a buscou.( Lc 7,36-50) Uma outra pecadora foi perdoada. (Jo 8,4) Mas recebeu o aviso: deveria parar com seus adultérios (Jo 8,11) O homem curado na piscina também foi avisado de que deveria mudar de vida para que algo de pior não lhe acontecesse (Jo,514) Judas teve sua chance: preferiu o dinheiro. (Lc 22,48) Pedro foi censurado com apenas um olhar: arrependeu-se ( Lc 22,61)

Pe. Zezinho scj

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