CARL SAGAN E FUKUSHIMA

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O leitor fará bem a si mesmo se ler, de Carl Sagan, os livros Bilhões e Bilhões, O Mundo Assombrado pelos Demônios, Variedades da Experiência Científica e, de acréscimo, o livro de Jean Baudrillard: A Transparência do Mal. Entenderá um pouco mais os perigos de um marketing bem urdido que empurra nas pessoas falsos conhecimentos e falsas seguranças da fé e da ciência. É o quadro atual do mundo. Baudrillard não previu as mesmas catástrofes oriundas da mentira, mas analisou as mentiras que levam a catástrofes.

Marketeiros de plantão venderam e seguem vendendo meia ciência como ciência e meia fé como fé, meia medicina como medicina e meia descoberta como descoberta definitiva. Tem sido o caso de doutrinas, alimentos, fármacos e matrizes energéticas. Com isso arrola bilhões de dólares eles criam e tem pressa de vender. Então a experiência cientifica que não passa de pesquisa é vendida como descoberta. A teoria religiosa que não passa de teoria é oferecida como a última revelação do céu.
“Nosso fármaco é a resposta definitiva contra sua enfermidade. Compre, sem medo de efeitos colaterais. Afinal você tem que confiar em alguém. Haverá um preço para esta cura, mas não custará o seu salário.”
“Nossas usinas atômicas produzem a fissão nuclear de maneira limpa e garantida. Em nossas usinas jamais haverá vazamento. Afinal, sem elas seu país não terá energia e sem ela não há progresso. Haverá um preço para esta energia, mas seu país terá como pagar”.
“Nossa doutrina religiosa é eficaz. Entre para nossa Igreja e não sofra mais. Curamos de Aids, de câncer e de qualquer enfermidade, de pâncreas, pulmões, fígado,coração, baço, artrite e qualquer outra ite que o demônio jogar na sua vida; de quebra, expulsamos o demônio da depressão, da unha encravada e da diarréia braba…Mas visite-nos em algum de nossos templos…Haverá um preço para tudo isso, mas não passa de 10% do que você ganha!”

Os episódios de Hiroshima, Nagasaki, Three Miles Island, Tchernobil e, agora Fukushima, deveriam bastar para uma reavaliação dos conhecimentos e do propalado controle das forças ocultas numa usina ou numa bomba. Se não conseguem controlar explosões de pequenos motores de aviões, barcos e carros que às vezes escapam ao controle, como podem garantir controle sobre a força colossal de uma usina atômica?

Mas o marketing é tão bem feito que a população nem sequer pensa em raciocinar. Confia na ciência, da mesma forma que os adeptos de uma igreja confiam cegamente nos milagres do seu líder. E cientistas e pregadores sabem argumentar. Sabem que oferecer esperanças atrai menos adeptos e compradores do que oferecer certezas e soluções. Então aparecem os cientistas que resolvem e os pregadores que resolvem. São as ciências e igrejas de grandes resultados.

Quando algo dá errado, os cientistas responsáveis não aparecem nem pedem desculpas. Deixam isso to para os governos locais. Não entregam o cargo e ainda acham culpados que não foram eles. Foi a equipe e manutenção. Se tivessem seguido as instruções teria dado certo! Não se dão por vencidos. Não podem admitir que erraram. E duzentos mil cidadãos ou milhares de fiéis perdem o chão por conta da promessa não cumprida.

É aí que a boa religião e a boa ciência se encontram e é também aí que a má ciência e a má religião se dão as mãos: nas garantias e nos passos dados. Se templos e laboratórios se limitassem a oferecer esperança talvez vendessem menos e arrecadasse menos ainda, mas serviriam à verdade. Foi Jesus quem mandou duvidar dos que garantem saber das coisas. “Venha conosco. Nós sabemos”…

Mas partidos em campanha política, indústria e comércio e igrejas proselitistas precisam oferecer certezas. Então batizam suas esperanças de certeza e embalam seus produtos com tantas promessas que o fiel ou comprador nem sequer se importa em verificar a data de validade ou as letras quase ilegíveis que avisam que há algum perigo naquele pacote…

Usinas atômicas, doutrinas imediatistas de céu e de paz raramente trazem a descrição do perigo latente no rótulo. Usinas ainda postam caveiras nos lugares perigosos, mas os templos não avisam à entrada que ali pode não haver milagres a toda hora e o demônio ali expulso pode não ser demônio de verdade.

O que tem a ver Carl Sagan com Fukushima? Foi um cientista de altíssima repercussão que ousou ir a público mostrar as maravilhas, mas também os perigos da ciência, e ao mesmo tempo mostrou as potencialidades da fé e seus riscos. E ele se proclamava não crente. Mas teve a fineza de escrever que o fato de ele dizer que não acreditava não significava que Deus não existe. Significava apenas que ele não acreditava. Ele poderia estar errado!

Fukushima pede cientistas, governos e religiosos que não mintam para o povo. Uma usina atômica pode se transformar em bomba atômica. Que os vizinhos saibam disso, da mesma forma que vizinhos de vulcões sabem o risco de vida que correm.

Perguntado por jovens sobre o que penso de Angra dos Reis, dei a minha opinião, e depois sugeri que buscassem na internet as respostas de políticos, físicos e deputados que não mentem, como Carl Sagan. Ele previu Fukushima! Não foi ouvido!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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