A LEI DO VENTRE LIVRE

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Relembro com tristeza o dia 25 de abril de 2008 em Washington. Qualifico-o como um dia democraticamente trágico, como foi trágica a decisão de Bush de invadir o Iraque, mesmo tendo a aprovação da maioria. É impressionante, mas não basta ter aprovação da maioria para alguém estar certo. Na democracia, a maioria decide o rumo a tomar, mas não decide necessariamente o certo. Ter maioria não é o mesmo que ter a verdade. Os jornais dizem que 60% dos norte-americanos são a favor do aborto. É de se verificar. Mas fatos são fatos. Aconteceu naquele dia uma marcha de mais de 500 mil pessoas a favor do aborto. Assustou e incomodou o cidadão que pensa diferente e não admite que se extraia do ventre feminino um feto concebido.
O debate parece até simples, embora suas conseqüências sejam graves e complicadas. É briga de conceitos sobre o que é vida, o que é vida humana, quem é dono da vida e quem é o dono do ventre da mulher. Aquela vida lhe pertence ou não? Eles dizem que a mulher é dona da vida que concebeu, mas não deseja gestar; que o ventre é dela e o que ela leva no seu ventre a ela pertence; primeiro a ela e depois ao homem que pôs ali a sua semente. Insistem que a decisão é dela! O Estado e a Igreja devem ficar de fora. Eles querem o direito de fazer sexo com liberdade e, se acontecer alguma concepção indesejada, querem também o direito de interromper a gravidez e a gestação. É a vitória absoluta do indivíduo sobre a vida alheia, porque a vida deles eles mesmos não controlam. Vem a dor e eles correm para o médico. Mas decidem que feto deve viver e qual deve morrer. Nesse caso, o Estado que fica de fora na hora da concepção, precisa entrar com uma lei que lhes permita interromper a vida que começa a se manifestar e que, se preciso, pague as despesas dessa interrupção.
Resumindo: Querem o Estado fora da relação, mas, se precisarem, já que pagam impostos, que o Estado pague a nossa conta do nascimento ou do aborto, ou permita que façam o que quiserem com este fruto não desejado. Motivo? Entendem que a mulher é a senhora absoluta daquela vida. O Estado que pague a conta ou não interfira. Deus não conta, muito menos os que se dizem seus porta-vozes, até porque já existe quem pregue religiões de resultado e apóie o aborto!…E garantem que Deus não obriga alguém a ter um filho indesejado. Ou não leram ou pularam as passagens em favor do feto e da concepção.
Mais do que briga de mulher que não quer ser mãe contra a vontade está em jogo o direito de matar e de decidir quem deve e quem não deve nascer. Assusta pensar que 60% dos americanos concedem esse direito à mulher. Número semelhante que, aliás, não foi consultado, concedeu ao seu presidente o direito de invadir ou não invadir um país estrangeiro em nome da vida e da democracia.
A lógica é cruel. Fica proibido invadir o ventre de uma mulher para defender o direito de vida do feto que ela não deseja, mas fica permitido invadir um país de milhões de habitantes para tirar do poder um ditador indesejado. Enfim, consagra-se o direito de interromper uma vida ou matar pessoas que nunca vimos. Basta que se tenha um motivo forte.
É impressionante que mais de meio milhão de pessoas marchem por esse direito. Consideram-se progressistas quando lutam pelos fetos das inocentes focas, dos micos-leões-dourados e dos ursos pandas. Consideram-se também progressistas, porque lutam pelo direito ao aborto. Mas, quando nós, que também defendemos ursos pandas, focas e baleias ousamos defender os fetos dos humanos e seu direito á vida, gritam que somos conservadores. Deu no que deu: interromper a vida de um futuro ser humano virou progresso e defendê-la virou retrocesso. Não tem lógica, mas o nosso não é um tempo muito lógico: vive-se de movimentos políticos, civis e religiosos. Quem não adere e não entra na onda é considerado retrógrado ou perigoso. Entramos outra vez na era que dispensa o cidadão que pensa!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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