A DITADURA DO SUJEITO

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Há que haver sujeito para que se forme uma sentença. Esteja evidente ou oculto, o sujeito precisa ter o seu verbo e o seu lugar. Portanto, nada contra o sujeito, desde que ele conheça o seu lugar. Adjetivado ou não, ele deve ser um substantivo relevante. Mas a sociedade que construímos tornou o sujeito mais importante que o verbo, o objeto, as preposições e as conjunções da vida em comum. Em alguns casos ele se acha tudo e ocupa o todo. É o que tem acontecido em qualquer lugar onde o “eu” se torna o centro, o começo e o fim de tudo.

Acabamos de ver mais um filme sobre “eu” demais na sociedade brasileira. O de ontem matou o menino João Vitor, a menina Isabela e levou crianças, pais e velhinhos para a morte porque alguém queria droga, carro ou herança agora, já. Tinha que ser do jeito deles, nem que tivessem que roubar ou matar. O mais recente, até que vejamos mais um por três o quatro dias, foi o seqüestro de duas adolescentes porque uma delas decidiu não mais namorar um dono de mulher, dono de um amor e, aos vinte e dois anos, rapaz incapaz de perder.

Foi guerra declarada não por paixão, mas por território e posse. Não! Ele não poderia perder a menina que era sua desde os 12 anos! Ela não poderia jamais pertencer a um outro. Se não fosse dele não seria de mais ninguém! Então ele a prendeu, sacudiu toda uma comunidade, causou um gasto de milhares de reais, mexeu com um país inteiro, não por amor, mas por egocentrismo. Não nos iludamos. Paixão é maluca, mas não chega a isso. Posse e poder, sim. Foi guerra contra a sociedade por território conquistado. Eloá era terra conquistada e ele foi à guerra contra a cidade e o país porque não poderia perder Eloá de quem se apossara aos doze anos da menina. Ele tinha dezenove. Desculpem-me os adolescentes, mas é cedo demais para ser de ou para alguém com tanta intensidade!

Isto nos leva de volta à pregação religiosa e política do “vencedor”. Quando alguém aprende que o seu “eu” tem que vencer e não pode jamais recuar, perder e ceder, os mais desequilibrados levam isso às ultimas conseqüências. No mundo dos fanáticos, dos traficantes e dos ultra-super-corruptos não se perde, não se devolve, não se aceita outra solução senão aquela que para eles significa vitória. Morrem ou matam ou pegam anos de cadeia, mas não ficam sem o seu dinheiro, seus escravos ou suas benesses.

Possuir tornou-se um verbo perigoso. Enlouquece funcionários públicos, juizes, soldados, banqueiros e até religiosos. Não admira que enlouqueça também adolescentes e jovens. As palavras “eu” e “meu” podem se tornar explosivas e perigosas. Platão, no De Republica , livro V lembrava que só há cidadania quando o indivíduo sabe a diferença entre o meu e o não meu. Lindenberg achou que Eloá era dele. E fez o que fez! Não foi apenas paixão. Foi conjugação errada do verbo ser. Ela poderia ser, desde que fosse dele. E, para ele, o verbo principal tornou-se o verbo ter! Quando ele a perdeu nada mais teve sentido. Furioso ele foi lá e destruiu o seu totem! É onde termina a ditadura do “eu”. E onde ela se instalou, sempre doeu…!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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