O PREÇO DO PROGRESSO

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Minha vila talvez lembre a sua. Éramos pobres. A vila São Geraldo nasceu de uma fábrica: a Cia Fabril de Juta. Viemos de Machado, sul de Minas , com outras famílias à procura de vida melhor. Hoje, Machado está materialmente muito bem e nossa vila também. Já vai para 60 anos.
Passei esses dias pelo antigo armazém do “seo Berbare” e pelo sobradinho do Areão que limitava com a vila. A calçada tinha meio metro. Sentávamos nela como se fosse banco. Por conta do asfalto, ela agora tem 10 centímetros. Não há mais terra nem areia. A chuva já não nos enlameia. As casas eram todas pobres, tudo igual, muros baixinhos, portão pequeno. As portas e janelas ficavam abertas. Quase não havia o que roubar. As crianças iam de uma casa para a outra, porque eram um pouco crianças da vila e de todos. Confiava-se nos vizinhos. Havia o campo de esportes e de brincadeiras, com zelador e o “seo” Antero a nos ensinar convivência sadia. E havia os padres do “conventinho”, onde hoje moro um período do ano, porque fui ser padre desta congregação destinada a cuidar dos pobres. Meu pai era paralítico e minha mãe também morreu em cadeira de rodas. Eles ajudavam os mais pobres com alimentos, roupas e remédios.
Havia a matriz da vila e apenas uma igreja evangélica nos fundos. Hoje a matriz católica tem três capelas e os pentecostais e evangélicos tem cerca de 20 templos pequenos. Eles cresceram, mas sobre isso falarei mais tarde. Há dois supermercados, bancos, postos de gasolina, o comércio prosperou. Ninguém mais é pobre de não ter o que comer ou o que vestir. Quase todos têm motos, carros, garagem, micro-ondas, geladeiras, televisão, rádio, telefone fixo, celular e cartão de banco. Em compensação, acabaram os murinhos. As janelas permanecem fechadas, as portas cerradas, e há portões de 2,5 a 3 metros em quase todas as casas. Algumas recorreram a cacos de vidros e alarmes. O progresso cobrou o seu preço.
Há quem diga que, mesmo assim, hoje é melhor. Há quem diga que com a droga, os assaltos e a violência que vieram com o progresso não valeu a pena. Os pais que perderam os filhos para a droga e para grupos violentos definitivamente acham que no seu tempo de pobres o risco era menor. Venderam-nos um projeto que consistia em comprar e ter mais e muitos não conseguiram viver o projeto de ser mais. Onde havia uma separação para cada 50 caias agora há pelo menos 2 para cada 20. Ainda são poucas as famílias separadas ou em segundas núpcias, mas os casamentos sem igreja, já preocupam.
Imagino que nossa vila seja como a sua. É impossível não querer progredir. Faz parte do ser humano. O que é preciso é saber progredir sem regredir. No Brasil há muitas vilas e cidades que quando progrediram regrediram. Olhe apara a sua e veja se não tenho razão. Faltou espiritualidade! Ter não é o problema. O problema é ter sem saber ser!

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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