O quadro é o de um país gigantesco em alguns aspectos, mas em outros, estreito, limitado e bastas vezes sem limites. Excesso de pobreza, excessivo contraste entre pobres e ricos, excesso de impostos, excesso de corrupção que, como nossa biosfera, é alta e rapidamente renovável, excesso de violência dos bandidos, excesso de violência dos agentes da lei, falta de segurança, falta de habitação, excesso de esperdício, em alguns casos excesso de religião, excesso de tudo.
Somos um país hiperbólico. Aqui, em se plantando tudo dá em grande quantidade. Nunca vem pouco. É o país do jeitinho que, de tanto jeitinho começa a não saber mais o jeito de lidar consigo mesmo.
São tantos inquéritos, tanta CPI, tantas novas leis, tanta desobediência ás leis antigas e tanto jeito de burlar as novas que nos tornamos um país onde o honesto entrega as armas e o bandido aumenta o seu arsenal. A lei não é para ele, que dirige um governo paralelo e também não é para quem desviou ou roubou milhares ou milhões dos cofres públicos, porque ou é absolvido pelos seus pares, ou contrata um exército de defensores. Diferente de Zaqueu, rouba mas não restitui! Em tese, são tantas as protelações e recursos que a maioria espera ser condenada, só depois da morte.
A violência absurda do fatídico dia das mães foi sacrilégio. Os bandidos escolheram um dia sagrado para a família para marcar a extensão do seu ódio. Mataram dezenas de agentes da lei, e o gesto foi claro: matarão governador, presidente, juizes, advogados, delegados ou quem quer que ouse combatê-los ou tirar-lhes o poder. Nem paises em guerra declarada trem tantas mortes num só fim de semana. Foram quase duzentos atos de guerrilha e sabotagem com quase 70 mortes. Isto, num dos dias mais amorosos do ano. Paralisaram 12 milhões de pessoas. E pensar que apenas oito bandidos fizeram isso. Nem o presidente da republica, se quisesse, teria tamanho poder de mobilização.
Um culto sacerdote italiano, de passagem pelo Brasil, comparava a marginalidade no Brasil e a máfia mais os movimentos dos anos 70 na Itália. E dizia: – Somos dois países, nos quais a lei só vai até certo ponto, obedecemos até certo ponto, mas os bandidos e os corruptos não têm limites porque sabem que serão punidos só até certo ponto. Não podia estar mais certo. Desde então a Itália reagiu. No Brasil, ao ver os congressistas a votar em secreto para inocentar seus pares, ao ouvir notícias sobre novos atos de corrupção envolvendo 170 parlamentares, e ao presenciar na televisão o banho de sangue que vitimou tantos agentes da lei, pensei em Aldo Moro, na Máfia, na Camorra e nas Brigate Rosse. Lembrei-me do que o padre sociólogo me dissera. Matar um ser humano é sempre um sacrilégio, porque a Deus pertencemos, mas matar os policiais daquele jeito e num dia como aquele foi um desafio frontal a Deus , ás mães, ao povo brasileiro, aos governos, ao exército, á polícia, e ao futuro. O País do jeitinho precisa achar o jeito, antes que os bandidos e os corruptos nos convençam de que nosso país não tem mais jeito! Outubro vem aí!




