Ficar do lado de cá e opinar como o Estado deve agir e como os moradores da região devem, reagir é fácil. Não moramos lá e não passamos por lá. Mas ir lá e combater o traficante, libertar os tóxico-dependentes de si mesmos e dos traficantes é trabalho duro, exigente e arriscado. É fácil dizer como ouvi no rádio, que os agentes que foram lá não têm o devido preparo. O certo é que a quase totalidade dos que opinam também não tem, porque nem sequer saberia ir. Ficar de fora do prédio em ruínas e gritar “cuidado” é uma coisa. Ir lá e correr os riscos do resgate é bem outra.
Opinar é um direito do cidadão, mas, se queremos, de fato ajudar, opinemos com conhecimento de causa ou com serenidade. Errou o Estado que até agora não tinha ido lá; erraram as igrejas que oram e falam, mas nem todas dispõem de um abrigo para acolher aquelas vítimas; erraram as ONGs que também opinam e não vão lá. Os poucos que foram não obtiveram sucesso estrondoso porque o combate ao crack leva tempo e paciência. O assunto é delicado, mas é melhor ouvi-los do que criticá-los, comendo pizza ou pipoca no sofá da sala!
Uma coisa é a clemência e outra a leniência. A leniência deixa como está para ver como é que fica; vê o traficante dominar o toxicômano e nada faz; deixa a situação se prolongar por vinte anos e empurra o problema com novas “aberturas de sindicâncias para apurar as responsabilidades”…O que, no Brasil, significa adiar a solução.
Clemência é ir lá e usar de métodos não violentos que, contudo, mostrem ao usuário que ele não pode continuar naquele lugar e daquele jeito; vai ter que aceitar ajuda para sair daquela areia movediça chamada crack. Palavrinhas amigas talvez o tirem por alguns momentos ou dias. Depois ele volta. Violência não o recupera. Mas disciplina, presença amiga, testemunho e necessidade podem fazer a diferença. Se nem todos os agentes da lei estão preparados, nem todos os religiosos estão.
Neste assunto ninguém pode ser adversário. Mas é justo que os que mostram saber sejam ouvidos. Quanto aos traficantes, que, em geral, são pessoas desalmadas e raramente se convertem, a lei deve enfrentá-los. É mais fácil um viciado largar seu vício do que um traficante largar o seu comércio letal. Se a leniência não muda o toxicômano muito menos muda o traficante. Para quem trafica: dura lei; para o toxicômano, clínicas e gente capaz. Viu só como falar é fácil? Fazer é que são elas…tem a ver com preparo e perseverança.




