Não falei antes porque respeito a opinião do povo. Pais e mães sabem porque querem ou não uma arma em casa. Está aí um assunto cuja decisão depende deles. Eu não tenho filhos pequenos para proteger com a minha vida.
A Igreja permite ao fiel o direito de defesa. Algumas famílias não admitem desarmar-se quando lá fora há gente querendo invadir a sua casa. A lógica dos pais nem sempre é a do governo ou a dos pregadores. Eles vivem situações concretas.
Falo como católico e como sacerdote. Meu voto foi pelo sim, número dois, porque acho que tem que haver um controle mais rígido de armas no país. Mas, como conheço a política no Brasil e os enormes limites dos delegados, da polícia, e dos juizes em fazer a lei funcionar, entendo porque o plebiscito nos dividiu. Entendo os pais de família e os outros cidadãos que precisam proteger seus bens e seus filhos, e escolheram não aceitar a proposta do governo de que largasse as armas. Não são guerrilheiros e não estão aí matando os outros. Só querem se defender, quando for preciso.
Sou pelo desarmamento geral e, por mim, votaria por acabar com a indústria das armas de fogo. Votaria também pelo controle de facas, facões, punhais, canivete, álcool, cachaça, wiskey, drogas e outras armas que matam mais lentamente, ou até com maior requinte de crueldade. Como o Governo não tem como controlar nada disso, entendo que só uma questão de educação e de fé pode mudar as coisas, mas isto a longo prazo. Se, depois de 20 séculos de cristianismo, com Jesus a ensinar o diálogo o desarme e a paz, não demos conta, vamos dar agora?
Sei de gente que tem vinho e cerveja em casa e nunca passa dos limites. Sei dos que vão comprar lá fora e se descontrolam. Há os que usam seus carros, canivetes, facas e facões do modo correto. Sei também dos que usam das armas de modo correto.
Em contrapartida há os que não sabem viver sem muito dinheiro, muita bebida, sem facas, e sem sua droga diária. Com uma lei que lhes proibisse tê-los, ainda assim os teriam. Congressistas e juizes, supostamente gente madura e equilibrada, não resistiram ao dinheiro proibido ou ao caixa dois. Então, obedecer ás leis não é questão de educação mais acurada, ou de melhores escolas. É de moralidade. Isso depende de uma série de instrumentos e pessoas agindo em conjunto, desde os pais, aos políticos e á religião.
O plebiscito poderia tirar as armas e diminuir a oferta desses instrumentos de morte. Mas teríamos que ter outros plebiscitos proibindo bares de servirem pinga, ou madeireiros de terem serras. Se as usam de modo errado, não deveriam tê-las. Não está foi esse o enfoque? Tirar da mão de gente sem consciência coletiva, ou de gente que o usaria mal, um instrumento que pode matar. Porque só armas de fogo, se morre mais gente no Brasil por carros mal dirigidos, drogas e bebidas que embrutecem?
Eu votei sim, porque quero o controle de tudo isso. Mas como sei que o Governo, agora e por muitos anos ainda, não tem nem terá como proteger os pais de família em seu lar e em perigo, sei que milhões continuarão comprando armas e munição. É como tóxico: é proibido, mas quem quer, industrializa, vende ou compra. Será mais um plebiscito para os historiadores, porque dificilmente será obedecido. Se você estiver com o guarda do zoológico, poderá passar sem armas por entre aquelas feras. Ele saberá como dominá-las. Mas se não houver guardas e você tiver que passar, provavelmente você vai querer uma arma. É melhor do que se deixar devorar. Algumas de nossas cidades viraram zoológicos, onde as feras estão fora e o cidadão está encurralado dentro das grades. Como ás vezes, as feras forçam a entrada, os cidadãos se armam. Deve ser por isso que tanta gente votou “não” . Fui gravemente ofendido por ter dito que votaria sim. Calei-me. Aquele pai tinha perdido uma filha dentro de casa. Brigar com ele? Como?
Entendo quem quer o direito de se defender. Nem todo mundo pode pagar um guarda ou um vigia, ou esperar pela viatura policial que, ás vezes, nem gasolina tem… O Governo não tem como nos dar esta cobertura! Pais de família têm outra lógica! Este plebiscito merece entrar como matéria de aula nas escolas.
O povo falou! Quem discorda, que lute ainda mais para que haja melhores escolas e melhores governos e melhores igrejas. Talvez não tenhamos investido o suficiente na “educação para a paz” . Existe alguma matéria sobre isso nas escolas? E as igrejas, além de ensinar a louvar o Deus que é digno de todo o louvor, também ensinam que Ele é digno de toda a paz? Quantas vezes pregamos sobre Mt 5,23 e Mt 25,31-46? Tem tudo a ver com a paz em primeiro lugar !




