O LIVRO E O HIV

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O mundo estava no começo da epidemia do HIV, havia enorme preconceito contra a enfermidade e medo quase histérico de chegar perto de algum portador. Rock Hudson famoso astro de Hollywood acabara de morrer da doença, mas tivera a grandeza de revelar do que morrera. Prestou um enorme serviço a todas as vitimas de HIV. Naquele tempo a doença atingia mais os homossexuais, hoje atinge qualquer pessoa. Disseminou-se.
A moça tinha dezenove anos, boa família, mas apaixonara-se perdidamente por um traficante que além do tráfico atuava num desmonte de carros roubados. Mas tinha costas largas e safava-se. Não se safou do HIV. Passou a ela sua doença. Ela saíra de casa para morar com ele. Voltou para morrer.
O pregador da paróquia tocou no assunto? Não! Não leu nada sobre a nova morte que invadira sua paróquia. Tinha havido mais de 30 casos na cidade e ele ignorava o fato. A família me chamou. Falei com o pároco que admitiu que precisava se inteirar mais do assunto. E o fez. Chamou=me e levei dois médicos comigo. Falamos aos jovens e aos pais. Foram dois dias intensos.
Adotei a moça e a família. Fui lá várias vezes. Era caso terminal. Ela viu a cruz que eu e meus irmãos dehonianos carregamos no peito. Gostou dela. Pediu-me para eu explicar o significado e eu expliquei. Gostou da explicação: tinha curvas suaves porque deveríamos suavizar a dor dos outros e tinha no meio da cruz um coração. Era o ano de 1979. Tínhamos um ano antes comemorado o centenário da Congregação.
Pediu para morrer com a cruz, coloquei a nela, quando a situação tornou-se extrema e aguda. Tentamos internação e eu tivemos bastante dificuldade. O hospital não lidava bem com estas emergências. Ameacei colocá-la num leito na frente do hospital. Poderia criar um fato político. Alguém no hospital, não por medo, mas sensível ao fato, aceitou-a. Foi lhe dada medicação de emergência, que era paliativa, porque ainda não se oferecia o coquetel que veio mis tarde a salvar muitos pacientes. Voltou para morrer em casa.
Esses dias encontrei seu irmão e ele, vendo de novo a cruz no meu peito, lembrou o acontecimento. Disse: “-Obrigado pela sua coragem de cuidar da minha irmã, quando ninguém sabia o que o que fazer”.
Respondi a ele: “-Não foi coragem. Foi informação”
Eu tinha lido a respeito e sabia que era grave, mas não era assim tão perigoso. Desde então, tenho dito aos evangelizadores que evangelizar, na maioria das vezes é também questão de saber. Muita gente deixou de ajudar por medo e por não saber. Uma das ferramentas da evangelização é a cultura. Quem sabe mais, ajuda mais e melhor. Não esqueçamos os livros.

Pe. Zezinho scj

© Padre Zezinho scj

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