Se eu o tivesse matado não seria considerado assassino. Quem viu o sucedido, testemunharia a meu favor. O rapaz tentou suicídio. Eram 4 horas da tarde. A avenida estava aberta para mim, farol verde; e eu vinha na velocidade permitida, 70 Km/h. De repente o rapaz cruzou, no mínimo a 150 Km/h, verdadeiro bólide. Foi a conta de eu frear o carro e os pneus cantarem. Escapou por questão de um palmo. Eu quase matei o rapaz e foi sem querer, mas ele cheio e adrenalina, quis arriscar-se. Fez roleta russa com a moto e escolheu qualquer um para matá-lo. O modo como dirigia era suicida. Ou estava drogado ou alterado.
Ninguém faz isso em situação normal, porque a tendência das pessoas é viver. Ainda com as pernas bambas, encostei o carro a cem metros adiante, todo mundo me apoiando… Saí para respirar um pouco. Deus acabara de me poupar da tristeza de ter matado um jovem. Isto mesmo: não pensei no acaso, pensei em Deus. A senhora do bar da esquina me chamou e fui tomar um café. Reconheceu-me. Ela e o marido falaram das coisas impressionantes que viam naquela esquina. Quase sempre, jovens em carro ou motocicleta, tentando pegar o restinho do farol, ou simplesmente ignorando a proibição. A noite tudo piorava. De vez em quando a polícia fazia blitz. Uns doze jovens perderam a vida li nos últimos dez anos.
Voltei pra casa ainda sob os efeitos do susto que levei e fiquei pensando naquele moço suicida. Se continuar desse jeito, em pouco tempo e conseguirá o que deseja: morrer jovem. Alguns conseguiram, mataram e morreram a 140 km/h na cidade.
São vidas jovens desperdiçadas por conta de uma poderosíssima moto ou de um potentíssimo carro. Vítimas da adrenalina e de um conceito errado de viver, eles morrem e enchem de luto suas famílias, mas o que dissera aquela mãe no cemitério cinco meses atrás, ficou-me na memória:
-“Eu sabia que ele iria se matar por causa da droga e por causa da maneira como dirigia. Agora, não vou chorar demais por ele, porque imagino que ele esteja onde queria estar. Várias vezes ele me disse que não se importava em morrer. Receio que era isso que ele queria. Alguma coisa não deu certo na vida dele, mas deu certo para seus três irmãos. Não sei onde falhamos, mas este nosso filho não queria mais viver. Receio que milhares de pais acabem tendo que dizer a mesma coisa. Por conta dos motores mais poderosos de agora, há, hoje, uma geração mais suicida”.




