Alertei certa vez uma católica, e ela não gostou, que estava assumindo uma responsabilidade enorme ao criar uma devoção sem o aval da Igreja e sem suporte bíblico. Várias pessoas iam orar na sua casa para uma senhora do tempo de Jesus que lhe aparecera em sonhos. O nome dela seria Sara. Segundo ela dizia, esta Sara fora curada por Jesus de uma grave doença no seio, mas os evangelhos não registram o fato.
Lembrei-lhe que foram milhares os casos semelhantes criados por fiéis entusiasmado com sonhos e aparições. Falei dos mais de 40 livros apócrifos e pseudo-epígrafos que eram ricos em devoções desse tipo. Ensinei que revelações particulares acabam na sua maioria rejeitadas pela Igreja por alta de consistência… Bem que tentei. Contei até algumas histórias de alguns proto-evangelhos. Em vão. Ela seguiu com seu grupo até o dia em que o marido reagiu e foi ao bispo que proibiu aqueles encontros em nome da fé. Proibida pelo marido, pelos filhos e pela Igreja ela adotou a posição de mártir incompreendida e perseguida. Não foi a única!
Bom de marketing e, para atrair mais pessoas para a sua paróquia, um jovem sacerdote se especializou em criar novenas, orações e devoções. Algumas eram efêmeras, só por aquele ano. Outras duravam mais. Um dia, o piedoso padre inventou uma romaria ao Morro das Cruzes. A ideia pegou e o prefeito deu o nome ao morro que até então não tinha nome. Lá, em cima do morro ele o pároco colocara oito cruzes dos mais diversos tamanhos, todas enfileiradas. A ideia era muito bonita: cruz das crianças abandonadas, cruz dos fetos abortados, cruz da juventude, cruz dos pais, cruz dos anciãos, cruz dos incompreendidos, cruz dos enfermos e cruz dos deprimidos.
Se ele quisesse poderia criar mais de 50 cruzes, mas ficou satisfeito com as oito. O povo, que também é criativo, começou a levar para lá, as suas cruzes com os títulos: cruz do medo, cruz das dívidas, cruz das tristezas, cruz dos sem teto, cruz dos sem terra. Em menos de três anos, havia lá cerca de duzentas cruzes fincadas no mesmo. Daria como deu, excelente catequese. No caso do jovem padre havia um contexto bíblico para aquela devoção do Morro das Cruzes.
Não há porque ver erro nesses acontecimentos e nessas devoções. Começou com o padre e as pessoas assumiram estas expressões de fé e de confiança. Qualquer paróquia poderia repetir a dose e não seria um erro, porque ninguém inventou revelações nem pedidos do céu. Foi ideia da terra e excelente motivação para os sofredores.
Se o pároco pode criar uma devoção, se o bispo autoriza, se os leigos podem criar suas devoções, por que não cria-las?! Mas naquela paróquia uma das cruzes foi tirada do morro: alguém a fincara lá sem permissão. Motivo da proibição: o nome ia contra a teologia católica: “Cruz da Cura Infalível”. É que novenas, orações e curas infalíveis não fazem parte da catequese serena da igreja. Faz tempo que a igreja oficial abandonou as devoções “pim, pam, pum” ou “vapt e vupt”. Se algum fiel ainda as mantém é por conta própria.




