O NOME DO AUTOR
Michel Teló poderia dizer, toda vez que a cantasse, que a canção “Ai se eu te pego” não é dele. É dos baianos Antônio Diggs e Sharon Acioly, que devem estar satisfeitos com a publicidade alcançada por meio dele. Mas fatos são fatos: a canção não é de Michel Teló.
No Brasil onde raramente se levam a sério os direitos autorais e onde ainda mais raramente se divulga o nome dos autores das canções, quem leva a fama é o intérprete. Aí está a razão pela qual permito que se cantem outras das minhas canções que deram certo, mas permiti apenas a uma pessoa que cantasse Oração pela Família. Já vi irmãos de outras religiões garantirem que a canção é da sua igreja e do seu pastor. Eu quando canto uma canção dos evangélicos cito a igreja e o autor. Não faço mais do que a minha obrigação de cristão. Cristão não se apossa dos frutos ou das luzes dos outros.
Cantores muito famosos em pouco tempo passam por autores da canção cujos direitos pertencem a outros. Como os intérpretes nem sempre mencionam o autor os autores são obrigados a se resguardarem, posto que, não poucas vezes, os direitos acabam indo para o intérprete e não para o autor; e nos livros e jornais ela acaba atribuída a quem a divulgou e não a quem a criou. A ética e a moral exigem que o intérprete divulgue não apenas a canção, mas o nome de seu autor. Se taxam de vaidoso o autor que luta por seu direito de ser lembrado, por que não taxam de vaidoso o cantor que assume a canção como se fosse dele? Se o autor deve ser grato a quem o interpreta, o interprete deve ser grato ao autor, não mudando substancialmente a melodia, o ritmo e a letra e, já que vai ser aplaudido, deixar claro que é grato a quem lhe deu aquela obra musical.
Raramente acontece. No Brasil como lembra Jean Baudrillard sobre a nossa era, quem é visto existe e quem não é visto nem existe nem é mencionado. Somos um país de cantores sem autores. Exceção feita aos cantores honestos que sempre mencionam os autores, grande número dos cantores simplesmente canta e colhe os aplausos. E não faltam os que diante de jornalistas, mesmo com a possibilidade de esclarecer as coisas, aceitam que lhe atribuam a canção que não lhes pertence.
Vai demorar anos até que se viva a proposta de Platão na sua famosa República “o meu e o não meu”… Num país onde campeia a corrupção e grandes e famosos se apossam impunemente de bilhões de dólares e reais, e onde se invadem terras dos outros e se põe fogo nas casas e nas máquinas em nome da justiça distributiva, invadir a autoria do outro é mero detalhe… Sugiro aos cantores famosos que, ao menos no palco onde colherão aplausos, digam a quem devem parte daqueles aplausos. Seria mais justo para todos. O povo não seria enganado e os autores seriam mais respeitados. Mas, como, no futebol as glórias vão para quem fez o gol, exceto quanto ele vai lá abraçar quem lhe deu o passe, levaremos anos até desenvolver esta cultura que faz parte da cultura da alteridade! Pensando bem: Deus é o autor mais desrespeitado da História. Criou bilhões de obras e andam modificando-as, explodindo-as, destruindo e apossando-se delas sem a menor referência a Ele. É… Pois é!




