CERTEZA DE SALVAÇÃO
Existe o soteriológico, o psicológico e o sociológico da fé. O soteriológico tem a ver com a salvação pela fé, o psicológico com o desejo e sentimento de estar salvo e o sociológico com o ambiente, reduto ou redoma onde o fiel se refugia para sentir-se salvo do pecado, das ciladas e do poder de quem o afastaria da sua meta. Para salvar-se o fiel precisará de primeiros e segundos, sendo ele o terceiro. O primeiro é Deus que salva, o segundo ou os segundos são seus porta-vozes e o terceiro é ele mesmo que aceita e obedece o primeiro e os segundos. O processo é de submissão a Deus, ao seu intérprete e porta-voz. Vale a pena não ser livre para sentir-se salvo, porque sentindo-se salvo ele tem toda a liberdade da qual precisa.
Nas igrejas cristãs tradicionais que já passaram por isso e, a duras custas optaram por pregar mais a esperança do que a certeza de salvação e a insistir na liberdade de escolha, o discurso é soteriológico, pedagógico e sociológico. Fundamenta-se em Mt 25,31-46. Vai ser salvo quem salvar os go-el, os ptochoi, os menos afortunados. Vai encontrar Jesus quem ajudar a salvar os outros. Não se trata de um discurso de céu futuro, mas de céu que já começa aqui na prática e no ensino da justiça e da solidariedade. Não existe salvação apenas pessoal e não é possível um seguidor de Cristo dizer que quer amar somente a Deus. ( 1 Jo 4,20; Mt 25,40) O que fazemos aos outros repercute no céu e o que deixamos de fazer por eles também repercute. Esta linha de fé não uso o imediato: Estou salvo, Jesus me salvou. Usa o Estou me salvando, Jesus está me salvando.
Nos últimos tempos, tempos urgência urgentíssima e de conversões urgentes e em massa, por conta da mídia que atinge milhões de ouvidos, o discurso tem sido presentista, agora-já. São os pregadores da certeza e do psicológico da fé. Sua linguagem é imediata. Não apenas saiba o que salva, sinta-se salvo…Não apenas creia que Jesus veio, vem e virá, ele está em você, tocando em você… Sinta Jesus, ele escolheu você, ele fala aos seus ouvidos, ele está aqui… toque-o… O Espírito Santo inundou você… Ele fala em você e por você… Você já pertence a Jesus. Você o encontrou, entregou-se e está garantido, selado, salvo…
Mas a seguir vem o adendo: – Não pode ser na igreja que você deixou, nem em outra igreja; tem que ser na nossa! A última revelação e a última palavra estão em nossos templos. O fiel que busca certeza adere a este discurso- garantidor. Igrejas que não podem dar esta certeza por crerem que o justo viverá da fé e caminhará enraizado na fé e na esperança (Rm 1,17; Cl 1,23) e por saberem que fé não é certeza nesses tempos de intenso marketing a cada dia perderão mais adeptos.
As pessoas querem resultado, garantias e certezas. Os pregadores de certeza que até dão endereço, dia e hora do milagre estão em alta. No momento seus templos estão abarrotados. Ali as coisas acontecem. O demônio ali mesmo diante dos microfones ou câmeras é expulso aos gritos, responde humilhado às perguntas do pregador cheio de poder e derrotado pelo homem de Deus que diz que o sangue de Jesus lhe corre nas veias.
Paulo porém, diz em Efésios 4,4 que não devemos agir como meninos que se deixam levar por ventos de novas doutrinas, ou sequiosos por novidades ( 2 Tm 4,1-5) O mesmo Paulo em Rm 5,5 e 8,4 diz que fomos salvos pela esperança e que esta não decepciona nem confunde. Em outras palavras, a pseudo-certeza confunde. A certeza que vem oferecida largamente e fartamente na mídia e nos templos de agora não é a da Bíblia.
Paulo fala em operar com temor e tremor ( Ef 6,5) ( Flp 2,12) a própria salvação. Quem está certo e sem dúvida alguma não tem dúvidas e não teme nem treme. Na 1Cor 13, 12 ele fala de enigma, algo que precisa ser decifrado porque nos vem como espelho e só no céu veremos com clara visão e sem véu. Pedro ( 1 Pd 1,3) diz que fomos gerados para a esperança. Passam de 100 as passagens do Novo Testamento que abordam a virtude da esperança e não chegam a 10 as que falam da fé como certeza. Apenas em Romanos 8,38 e Rm 14,14, 1 Ts 1,5 e Hb 6,11 Paulo fala da certeza como virtude que nasce da fé. Pelos escritos de Paulo percebe-se nele um pregador da esperança e não da certeza.
O que hoje se vê e se ouve na mídia religiosa é a garantia de solução dos problemas, oferta de igreja e de abrigo espiritual seguro, promessa de milagres e curas. Celebram-se cultos e missas de cura e libertação com certeza de que naquela hora serão curadas muitas pessoas, mas só naquela missa especial. Por isso não se chama qualquer padre para celebrá-la. Supostamente as outras missas não têm o mesmo efeito, porque os fiéis procuram esta e não as outras missas…
Pregadores de certeza não falam como quem espera e, sim, como quem garante. Os fiéis podem vir porque naquele evento presenciarão grandes milagres… Jesus os operava e não poucas vezes manda silenciar sobre o fato. ( Mc 7,36 ) Não queria propaganda nem alarde. Mas quanto mais ele proibia mais o divulgavam. Mt 17,9; Mc 8,30; Lc 5,14. Negou-se a operar milagres como prova ou espetáculo.(Lc 4,23 ) Só o fez quando desafiado. (Mc 2,10).
Jesus fez relativamente poucos milagres. O papa Bento XVI num dos livros da trilogia de uma entrevista a Peter Seewald afirma que Jesus não veio ao mundo para mostrar seu poder de milagres e sim para mostrar caminhos e anunciar a boa nova. A multiplicação impressionante de milagres nos templos e na mídia moderna nos oferece duas conclusões: ou os tempos apostólicos voltaram (At 4,33) e os novos apóstolos operam milagres ainda maiores do que Jesus e os apóstolos operaram, ou acontece o que Jesus e Paulo predisseram.( 1 Tm 4,1; 1 Tm 3,1; 2 Tm 4,15)( Mt 24,11; Mt 24,24) Jesus fala dos grandes prodígios operados por profetas que usando seu nome enganarão a muitos. E alerta os que quisessem seguir a não irem com estes que garantiriam saber onde ele estaria ( Mt 24,24-26) Fala em urubus e cadáveres. (Mt 24,28) Aponta para coisa que cheira mal!
É claro que há os sinceros e bons, que não admitem transformar curas, milagres ou revelações em espetáculo. Estes jamais entrevistariam o demônio encastelado num possesso; jamais dariam data, local e hora de milagre; jamais convidariam o povo a ir ao seu templo presenciar milagres.
Se estamos de volta ao tempo dos apóstolos, os pregadores de agora terão que explicar seus palácios com cobertura, seus jatos, seus helicópteros, suas contas no banco , suas casas com piscinas e vidro fumê, tanto quanto exigem explicação do papa no Vaticano já que não podem falar de aviões que o papa não tem. Os apóstolos podiam dizer que não tinham ouro nem prata e que apenas possuíam o poder de curar. ( At 3,6 ) Todos eles morreram pobres. Tiago 5,3 acusa ironicamente os ricos do seu tempo que entesouraram para os últimos dias…
Se estamos diante de novos apóstolos e ainda mais milagres do que naquele tempo, temos o direito de perguntar sobre os mega-templos e os mega-apartamentos de alguns desses novos pregadores num pais de tantas favelas e de tanta pobreza. Podemos todos apontar os dedos uns contra os outros e depois o povo pobre os apontara contra os que pregaram certeza de salvação mas vivem na riqueza.Muitos deles ainda ontem mal tinha dinheiro o para comprar uma bicicleta. Deus lhes deu aqueles bens? Deu a eles e não deu á pobre viúva que paga o dízimo e mal consegue o suficiente para se alimentar e pagar seus remédios?
São perguntas incômodas que precisamos fazer a nós mesmos. De onde vem e para onde vai nosso dinheiro? Depois dessas perguntas examinemos nossas certezas. Seremos poupados ou incorreremos na punição reservada a quem usou a religião para enriquecer? ( Mc 12,40) A certeza que oferecemos tem um preço. E a esperança? Muita bondade e muitos bens ou muita bondade e poucos bens? Mais esperança que certeza ou mais certeza do que esperança? E esperança é o mesmo que incerteza ou é mais do que navegar sem rumo?
Perguntas que incomodam. Se não nos incomodam, deveriam!




