MISSÃO E PRESUNÇÃO
Falo a mim mesmo, mas penso que meu pensar seja útil a outros. Quando Jesus disse aos seus discípulos que eles eram o sal da terra e a luz do mundo não estava dizendo que eles eram melhores do que os outros. Disse que seria esta a missão deles: dar amor e sentido à vida e iluminar o caminho dos outros.
Era missão e não elogio. Eles teriam que provar isso mais tarde! Se seriam ou não quem Jesus propôs quem eles fossem, o tempo o diria. O mero fato de ser cristão não faz ninguém sal da terra e luz do mundo, mas aponta para essa missão, que alguns conseguem viver e outros não.
Estradas não levam a lugar algum. São apenas asfalto ou barro batido com o nome de via ou estrada. Mas não são esteiras rolantes. Não levam. Apenas possibilitam. Se você não for, a estrada não levará você, mas, se você for, ela possibilitará a sua ida. Estradas não andam, não se mexem estão ali deitadas esperando que você tome a iniciativa. O verbo ir não tem nada a ver com a estrada: tem a ver com o viajante.
Se isto é filosofia demais para você então comece logo a aprender filosofia, porque sem isso a vida se torna repetitiva. Tem que haver um porquê para a ida e para a volta, para a estrada e para o viajante. Quando sei para onde vou, porque vou e o que pretendo fazer ao chegar, minha jornada é bem mais clara. Ir por ir não ir o suficiente.
A fé passa pelo mesmo processo. Supõe missão e um mínimo de erudição. Por isso o pregador limitado nos estudos tem obrigação de ler mais. O que leu mais tem obrigação de ser simples ao comunicar. Nenhum dos dois viverá de charme ou de presunção de que sendo simpático e querido anunciará bem a boa nova. Tem que ser fiel ao conteúdo básico da fé cristã. E ensinar o básico não é afunilar tudo num só tema.
Caso o pregador tenha dificuldade em saber qual o conteúdo básico da sua fé, tenha a humildade de procurar em livros especializados no assunto, quais os temas que jamais poderiam faltar numa pregação sobre Jesus. A isto o Papa Bento XVI, citando Romano Guardini, chama de essencializar a fé. Não ir ao ponto é o mesmo que cometer hamarthia, que, no dizer de Paulo é pecar ou errar o alvo da pregação e da vida.
Quem não se acha presunçoso examine-se de novo. Quem se nega a corrigir o que prega ou a corrigir atitudes pode até estar certo. Seu crítico talvez esteja exagerando. Mas se o crítico tem dez anos mais de estudos e no mínimo vinte anos a mais de catequista, convém ouvi-lo. Aquela palavra ou aquela frase de fato pode não traduzir a mensagem como deveria. Ele pode ter lido mais sobre o assunto!
A um pregador que insistia em dizer que Jesus nunca falou de política, sugeri os textos que ele não lera ou nos quais nunca prestara atenção. Leu e concluiu: Mas isto foi naquele tempo… Hoje a fé exige conversão pessoal. Não é missão da Igreja envolver-se com política. Percebi que ele era bom de lábia e ruim de Bíblia. Fora mais longe do que os mais de 100 textos e documentos da Igreja que, nos últimos 115 anos abordam a doutrina social.
Como ele foge de temas sociais como o diabo foge da cruz colocou sua rejeição nos lábios de Jesus. Perguntei-lhe se Jesus morreu apenas para que os ricos dessem esmolas aos pobres, ou se também morreu para que os ladrões ricos ou pobres parem de roubar e desviar o dinheiro do povo e para que os governantes governem para todos.
Acreditem ou não, ele insistiu que Jesus não veio ao mundo para falar de governos e de economia! Peguei e o violão e cantei uma cançãozinha de “Lá ia lá lá louvai…” Se cantasse alguma outra que falasse de cruz e libertação ele teria um ataque apoplético. Na sua Bíblia estes temas não entram. Onde ele canta de galo cristão que fala de justiça social não pia…




