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09/04/2009
PALAVRAS QUE NÃO COMBINAM

Não é culpa deles ou delas, mas há uma inteira geração de adolescentes e adultos que não consegue escrever três sentenças sem cometer, no mínimo, cinco erros de concordância. Fiz esta observação em aula para alunos de teologia que, em menos de dois anos, serão sacerdotes católicos. Eles não se magoaram. Alguns até confirmaram que em doze anos de escola nunca se lhes pediu uma redação ou uma análise de texto. Cresceram sem escrever. Dá-se o mesmo com candidatos a pastor evangélico ou pentecostal, segundo me dizem alguns irmãos dessas igrejas e segundo se pode ver e ouvir na televisão e no rádio.

Sentem-se limitados ao escrever, ao usar expressões idiomáticas, ao situar o verbo no singular ou no plural, ao usar substantivos e adjetivos ou justaposições. Transcrevo aqui uma frase, tirada de um aluno de segundo ano de filosofia, sem citar nome, nem escola nem cidade. Mas eis um pouco do que este futuro professor disse, ao falar do tema “A Família no Brasil de hoje”.
 
“Não quero me estender sobre um assunto já tão tratado na tal de mídia e nas igrejas, mas digo que o arquetípico familiar hoje não mais se sustenta, principalmente em se considerando-nos também nós, filhos de uma pequena minoria de poucos que ainda mantêm laços de fidelidade doméstica, mas que nem sempre apreciados por causa do poder do capitalismo que corrói os laços humanos e pessoais” ...

Redações ainda mais sem nexo são divulgadas na mídia. Com professores bem remunerados e com tempo para corrigir as provas, com salas de menos de 30 alunos, e com um sistema educacional que não exigisse o impossível do professor não aconteceria esta chocante constatação de agora. É humanamente impossível para o professor acompanhar tantos alunos.

Na redação de uma coluna de 2.220 toques, com tolerância para apenas 15 erros de concordância, pontuação e acentuação cerca de 75% dos alunos de curso superior não passariam. A escola da qual vieram não lhes ensinou a pensar. Em algum momento de nossa história mais recente, alguém neste país achou que o profissional não precisa pensar nem escrever direito e assassinou a língua portuguesa, a filosofia e a arte de raciocinar. Juntar palavras, eles juntam. O que não conseguem é dar-lhes algum nexo.

 



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